quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Aos Idosos, Nossa Oferta de Amor

Idosos... idosos eram meus avós,
Desde que me conheço por gente...
Depois, mais tarde, mais UMA VOVÓ
Apresentou-se à minha frente...
Desconfiada, busquei um avô mais...
Era apenas uma avó só,
Pois o avô já assinava o nome nos anais
Do Criador... Muita idade,
Cabelo branco, morrendo logo a deixar saudade...
Para mim, desde então,
Todo avô era idoso...
Tão carente no coração,
Como eu, mas carinhoso...
Disseram-me que todo idoso tem passado,
Vive com calma o presente
E tem futuro é duvidoso...
Meu avô contava histórias... boemia...
Tocava seu violão
E trazia-me, da feira, presente...
Minúsculos bichinhos... Cavalo dado
Não se olha o dente...
Ou será o rabo?...
Acho que com ele aprendi a ver, da vida, a poesia!
Não era perfeito, da casa era ausente...
Com minha avó sempre tinha questão pendente...
Mas meu avô me amava...
Quando eu era normalista, aos amigos me apresentava:
- Minha neta!... – todo orgulhoso...
Isso, para mim, era gostoso...
Um dia morreu e eu soube
Que não era meu avô, era um idoso...
A dor no meu peito não coube...
Quem substitui o pai é padrasto
E ao avô?... Para mim, é vovô Castro!...
Vovó Cotinha... Vó Augusta...
Gente nova nem sempre é justa
E compreende um idoso...
E pensar que podem tecer-lhe um destino ditoso!...
Os idosos são todos nossos avós,
Nossos pais, até mesmo nós...
O tempo terreno sempre nos chega breve...
Ter paciência, “pegar leve”
- como se diz... dar carinho...
Parente, desconhecido, amigo ou vizinho,
Todo idoso é nosso avô em potencial...
Ofertêmo-lhe nosso Amor Universal!...

Carvalho Branco

Serafim e Seus Filhos


São três machos e uma fêmea, por sinal Maria,
Que com todas se parecia.
Todos de olhar esperto, para ver bem perto,
Quem de muito longe é que vinha.
Filhos de dois juramentos, todos dois sangrentos,
Em noite clarinha, eia ô,
O João Quebra-Toco, Mané-Quindim,
Lourenço e Maria . . .

Noite alta de silêncio e Lua, Serafim,
O bom pastor de casa saía.
Dos quatro meninos, dois levavam rifle,
E os outros dois levavam fumo e farinha.
Bandoleros de los campos verdes, Don Quijotes,
De nuestro desierto, eia ô,
Serafim bom de corte,
Mané, João, Lourenço e Maria . . .

Mas o tal Lourenço, dos quatro o mais novo,
Era quem dos quatro tudo sabia.
Resolveu deixar o bando e partir pra longe,
Onde ninguém lhe conhecia.
Serafim jurou vingança,
Filho meu não dança conforme a dança, eia ô,
E mataram o Lourenço em noite alta de lua mansa . . .

Todo mundo dessas redondezas
Conta que o tal Lourenço não deu sossego.
Fez cair na vida sua irmã Maria
E os outros dois matou, só de medo.
Serafim depois que viu o filho lobisomem,
Perdeu o juízo, eia ô,
E morreu sete vezes,
Até abrir caminho pro paraíso . . .

Ruy Maurity



Cotidiano


Todo dia ela faz
Tudo sempre igual

Me sacode
Às seis horas da manhã

Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca
De hortelã...
Todo dia ela diz


Que é pr'eu me cuidar

Essas coisas que diz

Toda mulher

Diz que está me esperando
Pr'o jantar

E me beija com a boca

De café...
Todo dia eu só penso

Em poder parar

Meio-dia eu só penso

Em dizer não

Depois penso na vida

Prá levar

E me calo com a boca

De feijão...
Seis da tarde

Como era de se esperar
Ela pega

E me espera no portão
Diz que está muito louca

Prá beijar
E me beija com a boca

De paixão...
Toda noite ela diz

Pr'eu não me afastar
Meia-noite ela jura eterno amor

E me aperta prá eu quase sufocar

E me morde com a boca de pavor...

Todo Dia! Todo Dia!

Chico Buarque

“Entre a Serpente e a Estrela”


Há um brilho de faca
Onde o amor vier
E ninguém tem o mapa
Da alma da mulher...

Ninguém sai
Com o coração sem sangrar
Ao tentar revelar
Um ser maravilhoso
Entre a Serpente
E a Estrela...

Um grande amor do passado
Se transforma em aversão
E os dois lado a lado
Corroem o coração...

Não existe saudade
Mais cortante
Que a de um
Grande amor ausente
Dura feito um diamante
Corta a ilusão da gente...

Toco a vida prá frente
Fingindo não sofrer

Mas o peito dormente
Espera um bem querer

E sei que não será surpresa

Se o futuro me trouxer

O passado de volta

Num semblante de mulher

O passado de volta
Num semblante de mulher...

Zé Ramalho

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Alma de Mulher



Nada mais contraditório do que "ser mulher"...
Mulher que pensa com o coração,
age pela emoção e vence pelo amor.
Que vive milhões de emoções num só dia,
e transmite cada uma delas, num único olhar.
Que cobra de si a perfeição e vive arrumando
desculpas para os erros daqueles a quem ama.
Que hospeda no ventre outras almas,
dá a luz e depois fica cega,
diante da beleza dos filhos que gerou.
Que dá asas, ensina a voar
mas que não quer ver partir, os pássaros
mesmo sabendo que eles não lhe pertencem.
Que se enfeita toda e perfuma o leito,
ainda que seu amor nem perceba mais tais detalhes.
Que como uma feiticeira transforma em luz
e sorrisos as dores que sente na alma,
só pra ningém notar.
E ainda tem que ser forte, para dar os ombros
para quem neles precise chorar.
Feliz do homem que por um dia souber
entender a Alma da Mulher!


Ramilton