quarta-feira, 4 de junho de 2008

Beijo Eterno


Quero um beijo sem fim,
Que dure a vida inteira
e aplaque o meu desejo!
Ferve-me o sangue.
Acalma-o com o teu beijo,
Beija-me assim!
O ouvido fecha ao rumor
Do mundo, e beija-me, querida!
Vive só para mim, só para a minha vida,
Só para o meu amor!
De arrebol a arrebol,
vão-se os dias sem conto!

E as noites, como os dias,
sem conto vão-se, cálidas ou frias!
Rutile o sol
Esplêndido e abrasador!
No alto as estrelas coruscantes,
Tauxiando os largos céus,
brilhem como diamantes!
Brilhe aqui dentro o amor!
Suceda a treva à luz!
Vele a noite de crepe a curva do horizonte;
Em véus de opala a madrugada aponte
Nos céus azuis,
E Vênus, como uma flor,
brilhe, a sorrir, do ocaso à porta,
brilhe à porta do oriente!
A treva e a luz - que importa?
Só nos importa o amor!
Raive o sol no verão!
Venha o outono!
Do Inverno os frígidos vapores
Toldem o céu! das aves e das flores
venha a estação!
Que nos importa o esplendor
Da primavera, e o firmamento
Limpo, e o sol cintilante,
e a neve, e a chuva, e o vento?
- Beijemo-nos amor!
Beijemo-nos! Que o mar
Nossos beijos ouvindo,
em pasmo a voz levante!
E cante o sol! a ave desperte e cante!
Cante o luar.
Cheio de um novo fulgor!
Cante a amplidão!
Cante a floresta!
E a natureza toda, em delirante festa,
Cante, cante este amor!
Rasgue-se, à noite, o véu das neblinas,
e o vento inquira o monte e o vale:
"Quem canta assim?"
E uma áurea estrela fale
Do alto do céu
ao mar, presa de pavor:
"Que agitação estranha é aquela?"
E o mar adoce a voz, e à curiosa estrela
Responda que é o amor!
E a ave, ao sol da manhã,
Também, a assa vibrando,
à estrela que palpita
Responda, ao vê-la desmaiada e aflita:
"Que beijo, irmã!
Pudesses ver com que ardor
Eles se beijam loucamente!"
E inveje-nos a estrela...
e apague o olhar dormente,
Morta, morta de amor!...
Diz tua boca: "Vem!"
"Inda mais!" diz a minha,
a soluçar...Exclama
Todo o meu corpo que o teu corpo chama:
"Morde também!"
Ai! morde! que doce é a dor
Que me entra as carnes, e as tortura!
Beija mais! morde mais! que eu morra de ventura,
Morro por teu amor!
Ferve-me o sangue:
acalma-o com teu beijo!
Beija-me assim!
O ouvido fecha ao rumor
Do mundo, e beija-me, querida!
Vive só para mim, só para a minha vida,
Só para o meu amor!

Olavo Bilac

segunda-feira, 2 de junho de 2008

A Mulher de São Jorge


Cabia o mundo em seus olhos castanhos, quase esverdeados, abrilhantados por todas as estrelas dos sonhos mais infantis.
Pelo retrovisor, avistava os faróis no engarrafamento gigantesco.
Soprava um vento gelado contra os vidros da janela do seu automóvel, fazendo embaçar a visão, distorcer a realidade.
Nada conseguia se mover em quilômetros no abarrotar da rodovia.
E o rádio tocava músicas antigas de amores desperdiçados,

que a fez recordar o quanto duro era seu coração.
Seus dedos dos pés franziram, os pêlos arrepiaram
e o corpo ficou trêmulo.
Deitou a cabeça sobre o volante e fraquejou
no arquear das sobrancelhas,
que se alongou até as pálpebras,
fazendo-a cair num adormecer profundo,
quase moribundo.
Permaneceu por algum tempo naquela posição,
sob o ronco amortecido do motor,
abafada por dezenas de buzinas raivosas.
Quando acordou, sentiu a boca amarga em enxofre,
a pele seca e enrugada feito escama de peixe.
De tão enfastiada e atordoada,
parecia que tinha hibernado por meses, anos, séculos...
Confusa,
olhou o próprio reflexo através de um espelho no porta-batom.
Gritou amedrontada, de pavor e nojo!
Virara um dragão, de cor avermelhado,
com longas garras, asas enormes
e dentes afiados que se entrelaçavam a finos bigodes.
Retorceu-se dentro do carro,
assustada com seu estado grotesco de besta,
e arrancou as poltronas
e abriu o teto com uma rajada de fogo incandescente!
Voou rumo a uma constelação distante
para curar a ira de ter perdido,
na rotina das pequenas chateações,
a meiguice encantada de mulher.
Taciano de Jesus Mattos